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Até o ano passado, se alguém quisesse me encontrar em uma multidão, era muito fácil. Era só procurar o gordo. Agora, 27 quilos mais magro, já não vai ser fácil de me achar levando-se em conta somente meu perfil. Por isso resolvi escrever este artigo, para discutir um pouco mais da obesidade, das conseqüências e do seu tratamento. Em 1997, durante um congresso internacional na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, um médico brasileiro me disse: “Paulo, como nós podemos estudar tanto, ajudar tanta gente e continuarmos gordos? Temos que encontrar um jeito de emagrecer!” Essa frase ficou martelando na minha cabeça nesses anos todos. Em 2010, durante um atendimento a um paciente antigo, ele me disse: “Dr. Paulo, o senhor está muito gordo. Seus pacientes vêm aqui para procurar saúde, eles não podem encontrar um médico gordo desse jeito”. Agradeci a sinceridade do paciente e respondi: “M, da próxima vez que o senhor vier ao consultório eu não estarei mais gordo”. E cumpri a promessa. Vamos começar com 3 frases importantes, frases “de gordo”: ‘Quero emagrecer para comer as coisas que tenho vontade.’ ‘Não me imagino sem poder comer minha comida favorita.’ ‘Meu maior prazer é quando como uma comida bem gostosa.’ Se você se identificou com as frases acima, é bom começar a pensar em abandonar esses dogmas, senão vai continuar gordo, ou vai emagrecer e engordar de novo. Este artigo é para quem está disposto a mudar e emagrecer. Eu, por exemplo, engordei bastante durante a fase preparatória para a defesa do doutorado, 13 anos atrás, e me mantive gordo até o final do ano passado. Minha alimentação durante esses anos fosse baseada em verduras, legumes, carne e frutas, e já há alguns anos parei completamente com as bebidas alcoólicas, e não me lembro qual foi a última vez que comi algum derivado de trigo, batata ou açúcar. Também tomo bastante sol (sem filtro solar), já que a vitamina D está relacionada à obesidade. Então, por que continuava gordo? Antes de começar a discutir as causas da obesidade, vale a pena falar um pouco da cirurgia bariátrica (as famosas cirurgias para emagrecer), geralmente baseadas na retirada ou diminuição de parte do estômago. Se alguém por acaso quiser seguir esse caminho “fácil”, saiba que vai ter problemas importantes de saúde para o resto da vida. Como o estômago é essencial para a absorção de alguns nutrientes (como vitamina B12, Ferro e ácido fólico), a maioria dos pacientes vai ter que repor esses nutrientes para sempre, muitas vezes na forma injetável. Portanto, é trocar um problema por outro, que a longo prazo pode ser ainda pior. Eu nunca me submeteria a essa cirurgia, que em minha opinião deveria ser indicada somente para casos extremos. Há basicamente três causas mais comuns para a obesidade: as causas hormonais, em especial as disfunções da tireóide, a resistência à insulina e a compulsão alimentar. Muitas vezes duas ou três causas citadas acima são combinadas, ou seja, a pessoa tem compulsão alimentar e resistência à insulina. Por isso é essencial um acompanhamento médico para qualquer tratamento para emagrecer. 1. Diminuição da função da tireóide. Como a principal função da tireóide é regular o metabolismo, a relação entre obesidade e diminuição da tireóide já foi bem investigada, embora em obesos mórbidos (os extremamente gordos), ainda há controvérsias. O tratamento consiste basicamente na reposição de hormônios da tireóide, embora seja possível tratar de outras formas, como através da acupuntura, fitoterapia e homeopatia. De qualquer forma, se a questão for somente essa, basta fazer voltar os níveis normais de hormônios da tireóide no sangue para que o paciente, se não 2. Resistência à insulina. Infelizmente no nosso país (e em outros, também), o consumo de produtos de trigo (pão, massas, biscoitos, entre outros) e açúcar são a base da alimentação. Como pode existir um café-da-manhã sem um pãozinho? Fico espantado como em festas, ou mesmo nos cofee-breaks de eventos médicos, não há um só alimento sem carboidratos. Um misto de pães, bolachas, torradas, salgados (quase sempre fritos), acabam se transformando em “comida gostosa” (e muito ruim para a saúde). Sobremesa significa açúcar. Sucos são adoçados com açúcar, e refrigerantes são servidos durante as refeições. Essas substâncias são conhecidas como hidratos de carbono, ou carboidratos. Há carboidratos “melhores e piores”, ou seja, há carboidratos que não provocam o aumento muito grande de glicose no sangue. Alguns dos piores foram citados acima, como a farinha de trigo e o açúcar. O aumento constante da glicose no sangue acaba provocando um problema chamado resistência à insulina, ou seja, a insulina que deveria levar a glicose para dentro das células, com o objetivo de transformá-la em energia, deixa de funcionar corretamente O número de diabéticos nos EUA tem crescido assustadoramente, e há projeções que em 40 anos quase 30% dos americanos estarão diabéticos. A principal causa do diabetes (a do tipo 2, o diabetes mais comum) é a resistência à insulina, A glicose não pode ficar “sobrando” no sangue (diabetes), por isso o pâncreas produz insulina, que vai dispor a glicose para as células do corpo fabricarem energia (principalmente as células musculares). Hoje em dia a obesidade também faz parte de uma “doença”, chamada de “síndrome metabólica”. Que consiste basicamente de hipertensão, aumento da resistência à insulina, aumento das gorduras no sangue (colesterol, triglicérides) e obesidade. A síndrome metabólica é uma das principais causas das doenças cardiovasculares, como o infarto do miocárdio e do acidente vascular cerebral. Portanto, estar gordo e com resistência à insulina aumentada é um passo para morrer mais cedo. O tratamento da sindrome metabólica é mais complexo, e envolve medicação, dieta pobre em carboidratos e aumento da atividade física. 3. Por fim, vou falar da compulsão alimentar, e neste item vou falar um pouco da minha experiência pessoal. Essa é uma área bem mais complicada para o tratamento médico, e para compreendê-la é necessário “sentir na pele”. Muitos colegas tratam a compulsão alimentar com antidepressivos ou anorexígenos (remédios para tirar a fome), mas o mais importante é a consciência e a mudança da postura em relação à comida. Muitos gordinhos foram superalimentados quando crianças, e muitos vêm de famílias onde a comida tem uma importância fundamental. Nestas famílias, o “carinho” é feito através da comida, onde a mãe oferece a “comida gostosa” como forma de agradar a criança. Infelizmente essa relação carinho/comida faz com que o indivíduo acabe gostando de comer e, para se sentir ‘gostado’, ingere uma quantidade enorme de comida. Esse caminho acaba levando a uma espécie de doença onde, em cada dificuldade da vida, a ansiedade é combatida colocando-se mais e mais comida dentro do estômago, como forma de compensação. E a pessoa vai ficando cada vez mais gorda, se sentindo pior, e necessitando de mais comida que, a exemplo das drogas, produz um bem-estar durante alguns minutos, mas que é seguido de culpa e diminuição da auto-estima. E se essa atitude não for combatida como um vício em drogas, nenhum tratamento será eficaz, com a recaída levando a uma nova crise, onde a pessoa emagrece 10 e engorda 20 quilos. Eu pessoalmente combati esse problema, que era a minha principal causa de continuar gordo. Tomei a resolução de abandonar os alimentos de que mais gostava para o resto da vida. Mas o mais importante foi entender que enquanto eu me rendesse ao mecanismo de “prêmio-recompensa” da comida, eu estaria gordo para sempre. E acabei entendendo que ou eu seria magro ou comeria ‘comida gostosa’, e tive que escolher. E escolhi ser magro. O tratamento que fiz envolveu alterações da quantidade e da qualidade da comida, o uso de medicamentos da Medicina Tradicional Chinesa (compostos de ervas) e acupuntura, que eu mesmo me apliquei nos pontos para corrigir o metabolismo. Eu nunca parei de fazer exercícios físicos, mas a partir do momento em que iniciei a dieta mantive a regularidade, nadando pelo menos 3 vezes por semana. O resultado foi um emagrecimento de 27 quilos em 3 meses, sem perda muscular. Hoje estou bem mais feliz, porque estou mais magro, e também porque me libertei da prisão que é a “refeição por prazer”. É uma liberdade que nunca soube que existia. Serviço: Para conhecer mais sobre o trabalho do Dr. Paulo Farber, veja seu blog http://saudeblog.wordpress.com/ , que tem muitas matérias interessantes e não muito ortodoxas (por exemplo, o sol é ótimo para a saúde). Ou ligue para 11-3853.8315.



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